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Por Padmini

 

 

Dois livros de capa dura.

Dá para brincar até de bater à porta do livro e pedir licença aos moradores-personagens.

“Ajuda-nos a entrar” – nós dizemos, do lado de fora.

E assim abrimos os livros ROSA e A PRINCESINHA MEDROSA, do autor (escritor e ilustrador) que tanto adimiramos  Odilon Moraes, prontos para mergulhar em um universo de silêncios, palavras e imagens, cuidadosamente construído.

Apresentamos a seguir, um pouco da nossa visão e da visão do autor (ele nos respondeu uma pergunta!!) sobre as obras e os temas do silêncio e medo em livros infantis.

ROSA é o mais recente lançamento de Odilon, publicado pela Edições Olho de vidro.
A obra nos fala da relação entre pai e filho. De um pai que parece ter endoidecido, ao dar ao filho o nome de Rosa. Um dia esse mesmo pai pegou a canoa e partiu, rio adentro. Isso é o que nos conta o texto verbal sucinto da obra. Por outro lado, a ilustração nos conta de um tempo bem depois disso, quando o filho adulto volta a sua casa de infância, pega a canoa e segue, também rio adentro, em busca do pai.
Trazemos a atenção para o insólito como essa história nos é contada:
O filho retorna em busca do pai
O filho retorna em busca do pai
O autor cria uma forma narrativa em que o verbal e a imagem contam histórias paralelas, mas de maneira simultânea, na mesma página. E também cria profundos espaços-tempos de silêncio, mesmo com toda a página preenchida de ilustração. O livro de Odilon fala e nos toca profundamente por meio de seus não ditos.
Um desses espaços vazios nos diz da ligação de ROSA com o conto A terceira margem do rio, de Guimaraes Rosa, em que um pai também abandona a família e vai viver dentro do rio, na terceira margem do ninguém e da liberdade. Essa terceira margem é o lugar além das polaridades e das escolhas óbvias. É o lugar da loucura, quem sabe. É o lugar da liberdade. É o lugar do amor, que se mantém, mesmo diante de tantos acontecimentos inexplicáveis.
Por muitos outros não-ditos cheios de sentido pode nos levar essa obra. Uma obra que provoca os conceitos estigmatizados do que seriam livros e conteúdos para crianças, que ousa ir além – além das margens e de julgamentos pré-estabelecidos.
Pai e filho rio adentro
Pai e filho rio adentro
Que ousa criar terceiras margens de rios e vidas.
 Ao autor nós perguntamos:

Qual seria pra você a diferença entre o não-dito que aprisiona e limita e o não-dito da arte, que expande e traz novas possibilidades? Como se dá essa diferenciação na produção de livros infantis, e do livro Rosa, especificamente? Em outras palavras: o que receamos dizer para crianças? E o que devemos não dizer, para valorizar sua inteligência e capacidade de compreensão?

Odilon Moraes: A palavra serve para contar coisas, mas também para calar coisas. Isso porque é um recorte da realidade. Como uma rede de pescador que só pega os peixes que têm o tamanho da trama da rede. Da mesma maneira a linguagem só fala o que quer falar. Porém, calar também é falar pelo avesso.
O mesmo posso falar da imagem. Que o que ela mostra é proporcional ao que esconde. Esconder também é calar-se. Ilustrar também é esconder. Acho que o livro ilustrado é um espaço de criação literária, onde joga-se com essa dualidade da palavra e da imagem. Exerce-se com o dito e não dito, entrelaçando-os e equilibrando-os com o mostrado e o escondido.
Escolher o que não se conta (ou o que não se mostra) dentro de uma narrativa é tarefa de todo escritor (ilustrador).
Na literatura todo silêncio é eloquente: é preciso estar atento a escutá-lo.
Penso na linguagem do livro ilustrado como um campo de criação. Gosto de penetrar nas palavras e seus silêncios, nas imagens e nos seus vazios. Quer como criança, quer como adulto.

A princesinha medrosa
A princesinha medrosa
A PRINCESINHA MEDROSA é um relançamento pela Jujuba Editora dessa obra premiada de Odilon Moraes, primeiramente publicada pela Cosac Naify.
Aqui conhecemos uma princesinha muito medrosa. Muito mesmo. Muito mandona também. O mundo inteiro tem que mudar para que sua vida seja protegida dos medos que lhe afligem. Se ela tem medo do escuro, até o sol não pode mais descansar, e a noite deixa de existir. Se tem medo de ficar sozinha, todos têm que vir dormir ao seu redor e lhe acompanhar.
Um dia, inevitavelmente, ela se perde dos demais. E, tentando se encontrar, ela se depara com um amigo, que pouco se importa de ficar sozinho. Na verdade ele até gosta. Porque em sua própria e calma companhia ele pode, por exemplo, deitar na beira de um lago para ouvir as estrelas.
Assim, a princesinha vai mudando seu jeito medroso, quando percebe os encantos de ficar só e de brincar sem medo. Com o tempo, ela “não tem mais medo do escuro, pois é nele que brinca com suas amigas estrelas”.
A princesinha tem medo de dormir sozinha
A princesinha tem medo de dormir sozinha
E assim vemos gradativamente a ordem, a naturalidade e o ritmo da vida voltarem, quando a menina pode viver livre de seus medos, pelo menos aqueles mais intensos.
A representação de uma menina com medos tão extremos vem nos mostrar que, no mais íntimo, as formas do medo são desculpas ou fachadas, que servem para esconder um medo mais profundo: o medo da vida.
Odilon nos confirma essa intuição quando diz, no fim do livro, que se inspirou na fala de uma pequena menina, que uma vez disse:
“Não tenho medo de escuro nem nada. Só medo puro.”
Sem medo, ela pode ouvir as estrelas
Sem medo, ela pode ouvir as estrelas
Esperamos que gostem! Uma boa leitura!

Fotos e projeto de reportagem: Victor Mello e Padmini

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Silêncios que constroem sentidos: dois livros de Odilon Moraes
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