IMG-20171108-WA0054-01

Por Padmini

 

Os contos da tradição oral têm um incrível dom de trazer aspectos arquetípicos e inconscientes da condição humana. Talvez por isso causem tanta admiração e se perpetuem no tempo de uma maneira tão duradoura.
É uma pena que no Brasil os contos orais de nossa origem europeia tenham se difundido e popularizado muito mais do que os demais. Quando falamos em contos tradicionais, pensamos rapidamente nas clássicas histórias da Europa, como Branca de Neve e Chapeuzinho Vermelho.
Jogue seus cabelos Rapunzel
Jogue seus cabelos Rapunzel
As histórias orais de origem africana e indígena, por fatores óbvios de hierarquização de poder social e dominação, não são tão conhecidas por nossas crianças. As histórias de nossa cultura popular são um pouco mais difundidas, mas nada se compara à propagação em massa dos contos tradicionais europeus.
Esses contos de fadas europeus podem ser lindos e de imenso valor cultural e literário; no entanto, sua preponderância nos causa um grande dano: o de não vermos nossa realidade mais cotidiana e genuína representada. Afinal, os cenários dessas histórias são diferentes, os hábitos de vida são diferentes, e a cor de pele é diferente da nossa.
Cinderela negra
Cinderela negra
Num país de maioria negra, por exemplo, é no mínimo injusto que as princesas e príncipes perpetuados em nosso imaginário sejam brancos apenas, porque assim não damos representatividade a nossa totalidade. E, de alguma maneira, vamos dando continuidade aos padrões de (hiper) valorização da beleza branco, baixa autoestima de pessoas negras (entre elas, crianças), elogio excessivo à cultura estrangeira em detrimento da nossa e preconceito racial.
A noite do Baile: Cinderela
A noite do Baile: Cinderela
Então, resgatar as histórias tradicionais africanas, indígenas e da nossa cultura popular é um trabalho importantíssimo, urgente e de todos nós. Contudo, não é necessário, e nem possível, negar as já tão consagradas histórias de tradição europeia. Ressignificá-las, isso sim, é um papel e um caminho coerente e criativo.
Por isso tudo, nós nos encantamos com essa coleção da Editora Mazza, que traz os contos de fadas tradicionais em novas roupagens. A estrutura básica tradicional se mantém, o cerne da história é praticamente o mesmo e inclusive as ilustrações são naqueles tom e traços clássicos, de imensa expressividade, que tanto combinam com os contos de fadas.
Joãozinho e Maria!
Joãozinho e Maria!
O que muda, na verdade, são os elementos mais externos: sim, todas as histórias se passam no Brasil e com personagens negros!
Joãozinho e Maria é um conto que se passa lá na Serra da Mantiqueira, com toda nossa flora e fauna: goiabeiras e jabuticabeiras, maricatas e tucanos.
Cinderela e Chico Rei nos conta de uma história antiga, que aconteceu em Vila Rica (atual Ouro Preto). E Chico Rei é um ex-escravo que se tornou muito rico, e comprou a liberdade de muitos outros negros.
A bruxa!
A bruxa!
Rapunzel e o Quibungo nos fala de uma menina de longos cabelos, baiana, que brincava na Lagoa do Abaeté quando foi sequestrada pelo Quibungo, um bicho-papão terrível de nosso folclore.
Cachinhos Dourados é substituída por Afra, uma doce menina que vai passear no parque mineiro do Caraça e acaba entrando na casa de três lobos guarás (e não os tradicionais ursos). O resultado é o livro Afra e os três lobos-guarás.
Tudo é muito encantador nesses 4 livrinhos. Mesmo!
Afra e os três lobos-guarás
Afra e os três lobos-guarás
Para você que tem filhos ou alunos negros e que está em busca de mais livros infantis que os representem; para você que tem filhos e alunos brancos, mas que entende a importância dessa representatividade; e também para você que nunca pensou sobre isso.
Conheçam esses livros. E outros que deem representatividade à diversidade e à essência de nossa cultura.
Valorizar nossa raiz e nossa gente, e buscar por sua representatividade, em vários âmbitos, inclusive e principalmente em livros infantis, são, no mais profundo, atos de amor.
Quebrou a cadeira do bebê lobo
Quebrou a cadeira do bebê lobo
Não acham?
Vamos aproveitar, então, esse mês da consciência negra (e a força do dia 20 de novembro) para trazer esses livros para nossa casa e escola, para nossa prática leitora! Vamos juntxs!

Fotos: Por Victor Mello e Padmini

Textos dos livros: Cristina Agostinho e Ronaldo Simões Coelho

Ilustrações de Walter Lara

PARA COMPRAR!

QUER RECEBER NOSSAS DICAS DE LEITURA?
DEIXE SEU EMAIL!

Comments
Contos de fadas negros e brasileiros
Classificado como: