olga - editora lago de histórias - livro infantil

Por Padmini e Victor  Mello

 

Crianças são naturalmente “slow” (calmas ou devagar) quanto à leitura de livros. Já repararam o quanto elas pedem para ler o mesmo livro várias vezes? Crianças podem realmente mergulhar nos sentidos das histórias, digerir e degustar a obra com calma e sem pressa.

Pensando nisso, nós criamos aqui no Bamboleio a seção SLOW BOOKS.  Para que adultos mediadores também possam ser mais “slow”. O objetivo é aprofundar, com calma e com a ajuda dos autores, em alguma obra específica.

Ah, se você não conhece a obra, não tem problema.

Primeiro, porque a gente conta rapidinho por aqui. E, também, porque as respostas e as perguntas refletem sobre questões gerais, que podem trazer novos vislumbres e descobertas para os apreciadores e mediadores de livros infantis, de forma abrangente, além da obra.

(ah, para saber mais sobre o movimento Slow, clique aqui)

SOBRE O LIVRO OLGA

Nina é uma menina muito imaginativa. E também calada: de sua boca não sai nenhuma palavra. Ela tem o costume de ir até uma árvore e ficar lá com os bichos. Até que um dia aparece por ali uma cobra venenosa. E essa cobra, acreditem, usava óculos. Uns óculos bem vermelhos.

Como Nina vai lidar com a presença da cobra no mesmo galho em que o seu?

Gritar, sair correndo, agredir a cobra? Pois acreditem: Nina sequer se assusta com o bicho.

E o que ela faz é a leitura que vai te contar.

Podemos adiantar apenas que Nina nos faz refletir sobre a força da ingenuidade, sobre a força da visão de mundo infantil e seu tempo “cheio de nunca”.

Trata-se de um livro lindo, com muitos detalhes para ver, sentir, reparar.

Com vocês, então, o encontro entre OLGA, o Bamboleio e as autoras Helena Lima (texto) e Anabella Lopez (ilustrações).

(Livro da Editora Lago de Histórias)

PERSONALIDADES E PERSONAGENS

 

1) Nina parece ser uma menina muito imaginativa, mas é também solitária e calada. Vocês acham que o fato de uma criança ser mais calada e solitária é normal (parte de sua personalidade) ou um sintoma (de que carrega dores e desafios mais profundos dentro de si)?

 

Helena Lima: Bem, às vezes as pessoas podem estar mais caladas e introspectivas e isso não significa que estejam tristes. Outras vezes, porém, o fato de estar muito só pode ser um sintoma de que algo não vai bem. O importante é estar atento aos sinais e criar um bom canal de comunicação com a criança.
A menina Nina
A menina Nina
No caso desta história, quando criei a Nina, eu a imaginei muda. Seu silêncio é apenas uma impossibilidade de falar. Mesmo sem dizer palavra, a menina é criativa, imaginativa e destemida. Pelo menos para mim…
Anabella Lopez: Todas as crianças e também nós adultos temos um mundo interior que é só nosso. Nesse espaço habitam nossas fantasias e nosso imaginário. Isso, longe de ser um sinal de algum problema, é só um processo natural muito rico e prazeroso, em que a criança consegue criar, abstrair e imaginar infinitas possibilidades. Ela consegue aprender a pensar e a construir seu jeito de elaborar o exterior. Claro, é bom a gente ficar sempre atento a esses processos e acompanhar e estimular as brincadeiras. Mas sempre respeitando esses momentos de solidão e reflexão interna, quando se produzem boa parte das principais reflexões e aprendizagens.

2) No livro nos é dito que a cobra não é má, mas traz a morte. Ao longo das páginas, não fica clara a dicotomia entre bem e mal nesta personagem. Vocês acreditam que esse processo de trazer personagens ambíguos pode ser rico e benéfico para a criança?

Helena Lima: Há uma grande diferença entre ser má e venenosa. Olga não é má, apenas venenosa. A cobra é um animal peçonhento, isso a caracteriza, de fato. Porém, ser bom ou mau é uma outra história, envolve intenção.
Na verdade, ao escrever essa história, não planejei nada. Não costumo planejar meus escritos. Eles, simplesmente, acontecem.
As histórias que apresentam conflitos entre o bem e o mal, trazendo claramente esses dois lados, são interessantes também. É uma outra possibilidade. E apresentar muitas possibilidades ao leitor é algo extremamente enriquecedor.
A cobra
A cobra
Anabela Lopez: Acredito sim que esse processo é mais rico, por ser mais real e abrangente. É muito difícil categorizar uma pessoa simplesmente como boa ou má. Não só por ser uma visão reducionista, ao não considerar pontos intermediários ou contradições, mas também por ser um ponto de vista um pouco ingênuo, já que não leva em consideração a subjetividade da perspectiva do narrador. Quem decide esse limite entre bem e mal? Toda história é contada por alguém, um outro que tem sua própria perspectiva e apreciação moral. Acho mais interessante quando é o leitor que é interpelado, mediante o texto, a pensar e traçar seus próprios valores. O texto, na minha visão, deve mais perguntar do que responder, em todos os sentidos, e particularmente no plano moral.

OLHER DE VER (PERGUNTAS SOBRE A ILUSTRAÇÃO)

3) Qual é a técnica utilizada nas ilustrações? (O sonho de todo leigo em ilustração é que os livros infantis viessem com especificação sobre a técnica) :)

Anabella: A técnica combinada. Não técnica mista, mas combinada. Deixo clara a diferença, pois é muito comum confundir as duas. Na técnica combinada o resultado ideal se dá justamente quando o leitor da imagem não consegue facilmente distinguir como foi feita a imagem. Quando a imagem nos “engana” como se fosse uma mágica. O leitor enxerga a ilustração e acredita que aquele mundo é real, um mundo que plasticamente cria suas próprias estéticas.
Mas, especificamente, adoro combinar colagem, lápis de cores, fotografias, canetas, tintas acrílicas, enfim… tudo que esteja por perto e possa servir para contar essa mensagem visual. Neste livro, todas as técnicas anteriores foram usadas, em diferentes proporções ao longo das paginas.

4) Como é seu processo criativo? É mais intuitivo e emocional, ou há um estudo, um planejamento mais racional, para se chegar às imagens? 

Anabella Lopez, ilustradora agentina, premiada e muito criativa. Residente no Brasil.
Anabella Lopez, ilustradora agentina, premiada e muito criativa. Residente no Brasil.
Anabella: Meu processo criativo envolve esses três planos: o intuitivo, o emocional e o racional. O intuitivo no sentido de que cada imagem vai aparecendo sozinha, não controlo tudo; muita coisa se revela no próprio fazer. Dar espaço para que a surpresa aconteça, no meu trabalho, é fundamental. Muitas vezes a imagem final me surpreende e não é o que eu esperava. Aparece nela uma parte de mim que nem eu conhecia. Considerar o erro, as provas, as coincidências como parte do processo artístico é um desafio que prefiro escolher no meu caminho como artista. Algumas vezes isso faz com que o trabalho demore mais, ou me leve mais esforço, mas no final acaba sendo muito mais orgânico e natural. Se tivesse que pensar o processo criativo como uma linha, não seria uma única linha reta, seriam milhões de linhas, que começam, acabam, se quebram…
Mas é claro que, ao mesmo tempo, tem uma parte muito consciente que vai dirigindo o planejamento geral do livro. A comunicação visual de cada página, o projeto gráfico, a paleta de cor, tudo isso é pensado e analisado especificamente. Por isso, é tão importante ter claro qual é o conceito que pretendo passar para o leitor. Forma e conteúdo operam juntos, se confundem e fusionam, tanto quanto o consciente e o inconsciente, dentro das ilustrações.

5) Sobre a relação entre texto e imagem, como sente que é a sua autonomia para criar? Você deve seguir o texto ou permite-se ir além dele, contrastar com ele? Por exemplo, como explica o fato de o texto de “Olga” dizer que se trata de uma cobra gorda, e a ilustração nos mostrar uma cobra magra?

Anabella: Considero que a minha autonomia depende do meu nível de autoria. Se um ilustrador tem formação suficiente e um discurso visual sólido, ele consegue fazer melhor uso do espaço da imagem. Ele consegue criar um texto visual, que dialogue com o texto textual, gerando um terceiro texto diferente. Esse terceiro já não é somente o verbal, nem só imagem, muito menos os dois juntos; ele será justamente o vínculo que surge entre a justaposição da leitura dos dois. Quanto maior é a reflexão e o conhecimento do ilustrador, no sentido plástico e discursivo, maior será a liberdade que terá na hora de decidir qual será a sua mensagem.
A maioria dos escritores ou editores que me consideram para um projeto particular tem muito respeito e apreço pelo meu trabalho e meu ponto de vista. Tenho me sentido muito livre e à vontade nos meus últimos livros, quando o diálogo e a reflexão têm sido muito abertos e enriquecedores.
Helena Lima, com Olga. Helena é editora da Lago de Histórias e escritora sensível e habilidosa.
Helena Lima, com Olga. Helena é editora da Lago de Histórias e escritora sensível e habilidosa.

6) Mas, afinal, por que o cenário de vulcões? O texto de Helena Lima fala de um cenário de mato e árvore, mas a ilustração nos remente a um cenário de vulcões e montanhas. Nós, como leitores, temos algumas suspeitas: seria talvez para contrastar com a inocência da criança, ou ainda para representar um tempo mais mítico e ancestral? Ou nada disso, foi um processo apenas intuitivo?

Anabella: Exato! A referência é a um tempo mítico, como escreve Helena, “a chave do nunca”, um tempo que sempre é, eterno e contínuo. Um tempo que nunca foi, nunca será, e portanto é.

DISSOLUÇÃO DE ENIGMAS

7) Quem é Olga? E por que esse nome não aparece dentro do livro?

Helena: Olga é a cobra. O nome não aparecer na história é uma forma de provocar o leitor a fazer essa descoberta. Todas as personagens que aparecem na história têm nome: a menina Nina; Mateus, o louva-deus Marta, a lagarta; Vesga, a lesma e Lara, a cigarra. Logo, o leitor intui que Olga seja a cobra. Como o texto é todo bem poético e intuitivo, a brincadeira harmoniza.

8) O “nunca” de que nos fala a “chave do nunca” seria o tempo ocupado e vivido pela criança, aquele da imaginação, do sonho e da brincadeira?

Helena: Pode ser. Em literatura, tudo pode… nada é tão definitivo ou determinante. Ter a chave do nunca em tempos de correria, prazos e pressa, é um tesouro e tanto, não é mesmo?
Penso que uma cobra que vive de se enroscar em árvores, tenha a chave do tempo que não carece de medição.

 

PEQUENAS SURPRESAS, MISTÉRIOS E POESIAS

 9)Qual é o seu arrebatamento na obra?

O encontro de Olga e Nina
O encontro de Olga e Nina
Helena: As possibilidades infinitas de um leitor com um livro nas mãos. Isso é o que me arrebata. Descobrir as inúmeras leituras que se pode fazer de um mesmo texto.
Além disso:
O silêncio da Nina me silencia.
O comportamento de cada um dos bichos quando a Nina chega na árvore me diverte.
O lirismo contido na narrativa me encanta.
A beleza e as inúmeras leituras das ilustrações me cativam.
O suspense do texto me provoca.
E, para finalizar, a fantasia me salva.

 

E você, o que achou da entrevista? Tem alguma dica?

Conta pra gente!

PARA COMPRAR:

Se quiser comprar o livro, escreva para bamboleio.literatura@gmail.com

QUER RECEBER NOSSAS DICAS DE LEITURA? DEIXE SEU E-MAIL:

Comments
Slow Book: com OlGA, em busca da chave do nunca
Classificado como: