Do que tratam os livros infantis ?
Do que tratam os livros infantis ?

 

Por Padmini

“Você é muito novo para entender” – diz o mais velho.

E, logo em seguida, a criança sai, contrariada.

Quem nunca presenciou ou vivenciou essa cena?
Uma cena que mostra o possível abismo de compreensão que talvez exista entre adultos e crianças. A criança, de um lado, se sente incompreendida. O adulto, do outro, sente a criança como incapaz de compreender.
E o livro infantil nasce como um espaço de comunicação entre essas duas supostas polaridades, já que é o adulto quem escreve, ilustra e edita para crianças. Mas, então, o que e como comunicar nesses livros?
Percebemos que, diferente do livro adulto, existem certas censuras sobre os conteúdos e formas permitidos em livros para crianças. Algumas censuras são mais consensuais, quando todos concordam mais facilmente, como nos casos de incitação à violência ou uso de drogas. E existem censuras mais sutis, não oficializadas.
Mas como assim?
Por exemplo, quando damos sempre o mesmo imaginário para crianças, sem oportunidade de diversificação, é uma forma de censura.
Quando tentamos esconder realidades e sentimentos mais duros, oferecendo apenas conteúdos pasteurizados, mastigados, camuflados, estamos censurando.
Quando subestimamos a capacidade de compreensão da criança e seu senso estético, achando isso ou aquilo “difícil” ou “grande demais”, e dizendo frases como “criança não gosta disso”, estamos censurando, ou impedindo, sua oportunidade de conhecer, entender e imaginar.
Contudo, também seria censura se tentássemos estabelecer uma regra que valesse para todos. Por isso, convidamos vocês a conhecerem dois livros infantis para juntos refletirmos sobre esse tema delicado das censuras sutis.
Livro: Álbum de Família
Livro: Álbum de Família
Começamos com o livro “Álbum de família”, de Lino de Albergaria e ilustrações de Ana Maria Moura, publicado pela Edições SM.
Na obra, a menina Manuela nos conta um episódio de sua infância, quando seus bisavós (a que ela chama de avós) vão morar na sua casa. Durante a leitura, é muito encantador ver esse encontro dos polos opostos das gerações de uma família, e a profunda e espontânea amizade que surge, sem regras ou obrigações, entre uma criança e seus avós, já idosos. O livro é mesmo adorável!
No entanto, trazemos essa história, pois ela aborda o cotidiano familiar de uma forma mais livre (e sem censura), e que muitos poderiam achar inapropriado, por ferir o “politicamente correto”. São detalhes simples, mas que poderiam não ser aceitos hoje. A história foi escrita há cerca de 30 anos, apesar de a edição ser de 2005.
Amor de avós!
Amor de avós!
Manuela não esconde as pequenas brigas familiares. O pai, por exemplo, tinha muita implicância com a avó de sua esposa. E o mesmo acontece por parte da mãe, que não gostava da presença do avô de seu marido.
O bisavô de Manuela cheirava muito rapé, deixava que a menina cheirasse também, e ria de seus espirros, junto com ela.
Num dia de alegria, os avós assumiram que na verdade tinham um romance, e deram vinho misturado com água à menina, em meio às comemorações.
A criança e sua imaginação
A criança e sua imaginação
Perguntamos: tudo isso pode ser aceito em um livro infantil? Ou devemos amenizar realidades?
Nós entendemos que a literatura se tornou um local de refúgio hoje em dia. Isso porque, em um mundo de valores difusos, os livros infantis começam a ser percebidos como lugares seguros, de valorização dos sonhos, de proteção da infância.
Esse fator é importante e deve ser preservado. Mas até onde vai essa proteção? Isso precisa ser um padrão, uma regra? Ou devemos prezar pela diversidade de abordagens, inclusive as mais realistas?
Agora, avançamos um pouco mais, conhecendo outra obra, e trazendo outros questionamentos.
Muitas vezes, ainda esperamos que as obras infantis tenham o tradicional “Era uma vez…”, ou qualquer forma de construção, ou progressão narrativa, que garanta segurança e talvez até previsibilidade.
Mas e no caso da quebra de expectativas e da experimentação estética, tão presentes nas artes contemporâneas, estas são permitidas? Ou seria uma linguagem difícil para crianças entenderem?
Assim, lançamos mais uma indagação: deve-se sempre facilitar conteúdos para a criança ou é possível também desafiá-la?
Além da montanha - Editora Pulo do Gato
Além da montanha – Editora Pulo do Gato
Apresentamos, para essa discussão, o livro Além da Montanha, de Renato Moriconi, publicado pela Editora Pulo do Gato. Na obra, vemos a história de uma montanha. Ao longo das páginas, uma mesma montanha permanece estática, página a página, enquanto outros elementos ao seu redor mudam.
Trata-se de uma montanha que virou lenda. Dizem que a neve em seu topo seria, na verdade, a cauda de uma noiva que fugira de um casamento forçado. Quem chegasse ao seu topo, conseguiria felicidade no amor. Com o tempo, no entanto, a montanha passa a ser vista como local de maldição, até que um alfaiate, e também escalador, vai mudar os rumos dessa história.
Incrível trabalho de Renato Moriconi
Incrível trabalho de Renato Moriconi
Neste livro, há vários elementos que contradizem o estereótipo ou senso comum de histórias infantis: o final não é redondo, há falta de uma “lição de vida” explícita; as ilustrações não são óbvias ou de traços infantilizados; o narrador é mais distante e objetivo.
A história nos leva a enxergar o quanto a montanha não muda. As mudanças vêm do olhar humano sobre ela. No fim das contas, trata-se de um livro a respeito dos olhares humanos sobre a montanha.
De fato, o que faz a realidade é justamente nosso olhar sobre ela. Não há verdades ou mentiras, e sim perspectivas, que são sempre relativas.
Tudo isso podemos refletir a partir da obra.
Muitos olhares sobre a montanha!
Muitos olhares sobre a montanha!
E, se por acaso a criança leitora não entender nessa profundidade, não se preocupe. Ela não precisa disso. Deixe-a imaginar também e criar sua própria verdade sobre a montanha, a Noiva e o alfaiate.
Afinal, não é necessário sempre compreender e “fechar o sentido” sobre uma obra. Defendemos que a cada um deve ser permitido entender (e imaginar) a obra a sua maneira. Pois, se uma montanha pode ser tanta coisa, imagina um livro?
Nossa reflexão é, portanto, para que seja possível uma comunicação mais criativa, livre e efetiva entre adultos e crianças. E o que o livro infantil possa ser esse mediador de universos. Que possa ser, quem sabe, um terreno de ousadias, onde o adulto se permite ser mais criança e a criança arrisca-se em compreensões mais profundas, ampliando sua pequena experiência.
Acreditamos, sobretudo, na diversidade de conteúdos, formatos e linguagens, dentro do que oferecemos de literatura infantil às crianças. E isso inclui, é claro, espaço para conteúdos mais realistas e experimentações estéticas de diversas ordens.
E, você, o que acha?

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