Por Roberta Malta

O menino vento capa

O homem naturalmente ama. A mulher ama. As crianças amam. Os animais amam. Amor é esse instinto natural por estar junto. É nosso conforto, acolhimento e proteção.
Mas e quando a gente precisa ficar distante? E quando a vida nos separa de quem a gente ama?
Vou falar de dois livros que tratam disso. Falam dessa dor da separação, de maneira poética e bela.
Em “O menino que queria virar vento”, um menino tem uma grande tristeza, por sua amiga que mora longe, longe, bem longe. Tão longe “que pés normais nunca poderiam alcançar”. E o que salva esse menino é justamente algo que foge da normalidade, do óbvio, do racional:
O menino vira vento.
Pode ser que essa distância tão longe de sua amiga seja em função de ela já ter morrido. Ou pode ser apenas a imaginação de uma criança, que realmente vê lonjuras até entre cidades próximas, por exemplo. Mas o motivo por estar longe não é o que importa aqui. E sim a solução mágica e poética. O escapulir da razão. E a beleza e força que vem da amizade e do sentimento verdadeiro.
E não há como deixar de falar do projeto gráfico, do papel que se torna transparente, com a ilustração do menino que vai sumindo a cada página, até que ele se torne vento.
Eu tenho um amigo assim, a quem eu amo com todo amor e que mora longe, bem longe. E, como os personagens do livro, nós temos uma maneira bem própria de se comunicar, e damos nosso jeito de superar distâncias. Tudo bem que conto com telefone, whatsapp, redes sociais. Mas é certo que o sentimento é como o vento no livro: quase onipresente, criativo e brincalhão, pronto para aproximar afetos e colorir a vida.
menino vento
Páginas em transparência
Pedro e Lua
Pedro e Lua, de Odilon Moraes
O outro livro é “Pedro e Lua” – chão e céu, terra e sonho, poesia em preto e branco.
O contraste tem presença forte neste livro, nas ilustrações em preto e branco, que vibram nas páginas grandes e que parecem querer saltar e se comunicar com a vida.
Pedro é um menino com a cabeça na lua. E Lua é uma tartaruga que parece uma pedra. E os dois se conhecem. E se tornam afetos um do outro. Mas Lua fica muito triste toda vez que Pedro viaja, e então não sai do casco. E o que acontece então quando Pedro passa dois meses de férias na cidade?
“Pedro chamou…Lua não veio”
A dor deste livro é a da saudade. E, para aqueles que acreditam que é melhor não falar de dor e assuntos difíceis para crianças, recomendo esta leitura. E que a gente possa refletir sobre o assunto. Dor é parte da vida, afinal. E está na vida. Está inclusive na criança. E ver essa dor retratada de maneira tão profunda e poética pode ajudar inclusive a compreender esse ciclo impermanente da vida, de alegrias e tristezas.
“Lua parecia uma pedra”.
E assim segue a vida. O jogo do amor recomeça. Em preto e branco. Encontros e afastamentos. Alegrias e tristezas.
Amar e viver é um grande risco.

 

Pedro ... E Lua.
Pedro … E Lua.

O MENINO QUE QUERIA VIRAR VENTO

Texto de Pedro Kalil Auad

Ilustrações de Luisa Helena Ribeiro

Editora Aletria

PEDRO E LUA

Texto e Ilustração de Odilon Moraes

Editora Cosac Naify

 

 

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Saudades e distâncias
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